sexta-feira, 27 de novembro de 2009






















































Sérgio Mourão



JULHO DE 1996

Ninguém cria um futuro, mas um passado, porque não há nenhum futuro para criar: a cada acção, por todas as omissões, não caminhamos para alguma, apenas criamos passado.

E nunca ninguém nos ensina isto. Porque é fácil sermos irresponsáveis por um futuro que poderemos já nem ter pessoalmente, por um Futuro que não podemos construir sozinhos; mas sempre seremos responsáveis pelo nosso passado (ao menos diante do espelho)e a História não existe – o que existe são as nossas imutáveis histórias juntas, alinhando hipotéticas sínteses colectivas, onde, quem se interesse, colhe determinados factos, determinantes horas, indeterminados nomes, para ensinar às crianças e estabelecer as bases de qualquer poder dominante, actual em seu tempo.

Criar um futuro, não é sequer uma Utopia, é uma falácia com que nos queremos (ou nos querem) convencer que é possível mudar todas as coisas imutáveis que fazemos: a ilusão das religiões e dos poderes para uso de massas, enleadas elas mesmas nessa teia impossível de iludir: “eu” não tenho um futuro que não seja a morte, e a morte não se constrói, quando muito acerta-se com ela o nosso relógio particular; esta sociedade não tem futuro, autofágica e decadente, acabará mais rapidamente que o Reich dos Mil Anos de Hitler, ou a Heróica Roma, ou o Eterno Egipto dos Faraós Divinos; este mundo não tem futuro, um dia apaga-se como um vela ou uma bomba e nada poderemos fazer quanto a isso, Da Vinci ou Chopin, Cristo ou Marx, acabarão no mesmo lugar de todos os outros homens e mulheres, apagados em memórias de poeira, nem já grandes pensamentos, nem já pensamentos. Nem já sonhos.

Mas entretanto, teremos esse Passado para construir e com que nos confrontamos: construído segundo a segundo, para que não adiantam desculpas ou protestos de boas intenções, mas os actos e os gestos; onde não há lugar para esperanças adiadas mas para a simples prática quotidiana. No passado não há lugar para bombas nucleares “que nunca serão usadas”: Hiroshima e Nagasaki são crimes contra a humanidade de um país que se chamou Estados Unidos da América; os “descobrimentos” uma empresa comercial com marinheiros arrebanhados à força, as colonizações explorações esclavagistas; as guerras crimes colectivos para defesa ou expansão de interesses privados: a “História” dos vencedores e vencidos exactamente igual, as mesmas bandeiras, os mesmos heróis, os mesmos altruísmos, os mesmos criminosos, os mesmos deuses protectores – um espelho, afinal, não reflecte senão a imagem projectada; os mesmos realmente derrotados. A mesma Humanidade.

E só quando nesse passado que tivermos construído não haja já nem fome nem medo, nem raças de deus e animais falantes de duas patas, cães abandonados e árvores mortas, chefes iluminados e criminosos por direito divino, quando… só então poderemos dizer que estávamos (talvez) quase a construir uma Civilização.
Por acaso, vivemos um hiato em que não construímos nem Passado, nem história nem nada. Um hiato de anões em bicos de pés, com o ruído do bruábá gritado por milhares de medíocres, durando os segundos de um noticiário áudio, as horas duma página de jornal antes de ser deitada para o lixo. É o tempo da realidade virtual, improvável, isolante, imbecilizante: não olhes em volta – nada existe. O hiper-consumismo materialista afunda-se no idealismo absoluto mais primário.

Eu não existo, tu não existes, eles não existem. O nada povoado de pseudo-realidades digitalizadas.

Pseudo-possuidores: de bens, de deuses, de verdades, de ciências de doenças. Nunca o policiamento foi mais fácil, videolizados, informaticamente articulados, basta reprogramar o pensamento no momento certo. Não temos gestos. Votamos segundo sondagens viciadas, não escolhendo quem queremos ou o que cremos, mas em quem nos propõem. Não temos sexo por causa do “SIDA”. Não mudamos nada porque vivemos em “democracia”. Não fugimos porque o mundo é uma aldeia tentacularizada. Não nos revoltamos já, porque a Revolta é apenas um produto de consumo.
Resta apenas o silêncio.
Apenas o silêncio é criativo. Apenas no silêncio, alguém, em algum sítio, cria (talvez) um passado de dignidade. Porque, se não caminhamos para o futuro e apenas vimos do passado, que desculpas temos para todos os erros e traições omitidos? Quem somos, senão nós mesmos? Para onde vamos, se não caminhamos para nenhum desse Futuro-esperança a que um dia chegaríamos, vivos ou mortos, cantando hossanas? Que nos resta para lá da responsabilidade de todos os nossos gestos, e que gestos sejam já?
Alguém terá um dia Passado?
Hoje, aqui, o silêncio.



Victor Silva Barros



Julho de 1996
1 – Artista: S. M. e FEM. – aquele que cultiva as artes liberais; Pessoa que professa uma arte; (popular) operário; ADJ.: que ama as artes, que tem génio, engenhoso, manhoso, artificioso.

 Moral da história, isto não é comigo: apenas procura encontrar coisas nos meus bonecos, ou que alguém as encontre por mim.

Pinto porque me dá gozo este desafio, esta revelação lenta que se materializa na tela em branco, na folha em branco,

na vida em branco apenas acinzentado de manchas variáveis pelas complicações do acido desoxirribonucleico – as tais da hereditariedade.

2 – Também não venho, claro,

descentralizar: V. T. – afastar do centro; distribuir pelas localidades ou corporações locais (atribuições da administração pública).

Trago-vos um vago perfume do norte, nas minhas cores, mais que noutra coisa,

e, pelas minhas contas, o centro deve ficar ali para as bandas de Ponte de Sor, estimada localidade que aliás não conheço – e quanto à administração pública, temos dito; diria até que o público embirra ser administrado, com vossa licença, com toda a razão.

3 – Daí que períferia: S. FEM. – contorno de uma figura curvilínea, perímetro, âmbito, circunferência (que quererão algumas vozes significar com isto) não me diga grande coisa.

4 – Província: S. FEM. – Divisão territorial ou administrativa de alguns estados, divisão, conjunto dos conventos de uma ordem religiosa.

Não sou frade, mas sou provinciano:

o nosso Estado é dos tais que se dividem em províncias, a crer no mapa da minha agenda – esplêndido atlas geográfico-administrativo, oferta da firma X, passe a publicidade.

E ao dizer-se provinciano, assumo a consciência da especificidade do meu espaço, as suas capacidades criadoras, a sua memória colectiva, ao mesmo grau das minhas projecções universalistas.

Parece-me que isto não é nada de extraordinário, e talvez, seja devido apenas ao normal desenvolvimento da cabeça provinciana:

Não sofremos de macrocefalia (S. FEM., que dizem significar o desenvolvimento anormal da cabeça, ou parte dela) – deficiência aparentemente vulgar em certas zonas, estratos e indivíduos, as mais das vezes reconhecível pela utilização hermética e iniciática (de «Vago» perfume pejorativo) com que se utilizam certas
palavras:
Artista, descentralizar, periferia, província, por exemplo – como se se usassem para descrever aventurosas expedições, quiçá de caça, a ignotas florestas virgens.

6 – O que, evidentemente, é uma idiotice,

S. FEM.: maluquice, procedimento ou qualidade idiota.

(idiota – ADJ., S. M E FEM.: parvo; o que tem deficiência intelectual; imbecil).

JUNHO 1999

Que morreram ou renasceram os vanguardas, os -ismos multiplicados com areias na praia, e do eterno sabemos apenas que é a sombra do pó dos tempos, petrificado por acaso de descoberta: o sangue, o suor e as lágrimas sempre são gestos de romance quando são dos outros, e eu nunca existo porque estou de passagem.

Podemos (pudemos) ser os últimos românticos, os primeiros positivistas, os futuros ciberpunks, os reis da Etiópia, os fazedores:

Do maior romance do mundo.

Da única música digna de ser ouvida

Do quadro eterno, cristalizador de todos os longos olhares de sempre.

Pudemos até ser.



1- Então, de repente, damo-nos conta de que este é o melhor dos mundos, essa coisa das classes sociais e outros anacronismos invenções dos maus para nos dividirem, estamos é todos no mesmo barco, no amor da pátria e da Europa, de Deus.

Louvada seja a cultura ocidental e a raça branca: ámen.

Chegados à hora do testamento, descobrimos que não temos nada para deixar, por isso não vale a pena pensar mais nisso.

na época de todas as Utopias, pasmamos neste quotidiano classe média/funcionalismo público, a ver que mais havemos de comprar para encher este tédio, esta insegurança lenta e incompreensível, a impotência de não pensantes:

como única esperança, o sorriso musculado e as pernas dos anúncios, os marcianos e as férias de quinze dias a torrar ao sol.

2- Velhos velhos e jovens velhos vêem passar a História e não se dão conta de mais nada que não seja o seu umbigo, climatizado e asséptico, embalado segundo todas as normas de mercado para as palmas do clã durante quinze segundos de passagem nos média áudio-visuais.

É a hora dos arrependidos de tudo o que não fizeram sequer, dos vencedores que cada dia ganham mais vinte e quatro horas como mortos.

3- Há, é claro, a África, mas os pretos, bem vistas as coisas são uns inúteis que para pouco mais servem que para as nossas obras de caridade… e também, que diabo, crescem como coelhos, se não morrem uns tantos ainda nos vão é dar problemas.

Há, é claro, os chineses, mas a gente faz-lhes outra muralha à volta e pronto.

E aquela cambada da América do Sul, sempre a partir coisas, e esta cambada de marginais prontinha para nos roubar a pasta de dentes e os ditos cujos propriamente ditos: mas o mar é tão grande, e depois a grande USA aí está, atentinha, (ao menos até os japoneses acabarem de a comprar, claro) e aos outros a gente manda a polícia, que para alguma coisa se paga aos polícias, não? E eles que se entendam.

Há os velhos, que nos chateiam – mas ao fim a ao cabo pouco duram e a gente mete-os em casa com lacinhos e pratos de papas de cereais e fibras até que acabem.

Há os jovens, mas esses também não duram, depressa ficam velhos, e entretanto a gente ocupa-os aí pelos montes a espreitar os ursos, ou a jogar à macaca e já sobram poucos a partir vidros e a envergonhar-nos com porcarias.

Há… tanta coisa, caramba, tanto trabalho para a sociedade… e a gente com tão pouco tempo.

4- Ainda bem que o exército nos defende dos marcianos, e as fábricas de armamentos investigam e produzem tranquilamente e em paz (e assim estaremos preparados se os deuses se aliarem e desembarcarem, cheios de maus intentos, na madeira).

Tão bom. Malditos sejam, apenas, os que não têm a sote de ter nascido com um chafariz na praça, e uns Camões na cabeça, e o Afonso Henriques em Guimarães…





Por mim, bem muito obrigado. Estou ultrapassado e se calhar não gosto de ser feliz: os meus ódios e os meus amores terão sempre um rosto e um nome. As minhas utopias estão para lá de atravessar a rua, nas estrelas. A minha pintura é o meu tempo, para lá das capas de poliéster cor-de-rosa, compradas no super mercado ou na boutique da moda. Como intelectual, dizer isto é uma merda, nunca será substituído por nenhum eufemismo, o meu êxito é, simplesmente, estar vivo e atento: pensante.

Do que sempre desconfiarei é da factura.



No fim, também não importa. Daqui a cem anos, disto será apenas verdade o mar e as nuvens, o sol e as estrelas.

1983-in cat. Exposição - Salão da Cultura - Viana do Castelo

Coze-se a massa em água temperada com sal e depois escorre-se. Coloca-se num prato de serviço, às bolinhas, e ao centro põe-se o atum. Cobre-se com maionese e enfeita-se com tirinhas de pimentos morrones, azeitonas e flor de laranjeira.


É evidente que este princípio já fora enunciado em 1946 no catálogo da Philips França. P. III (autor anónimo), quando se afirmava: «Por exemplo, na rubrica «BALLET», que vem na secção clássica, podem encontrar, no lugar alfabética da palavra ballet, a lista de todos os nossos discos de música ballet.» (1)

Ainda assim não se podem negar as variantes fundamentais entre o primeiro sistema e o actual, mais rico em síntese, mais elaborado na dialéctica presumida entre o ser e o não ser – a obra e a ausência de obra. Evidentemente que a ausência de obra é imensamente mais rica em potencialidades (2), ainda que menos actuante a nível do sensível, esteticamente definido pelo cromatismo evidente nas tirinhas de pimentos morrones e azeitonas.

Não deixou a crítica especializada, com a visão brilhante e aguda que a caracteriza e se lhe reconhece, de ligar ainda a componente filosófica materialista (massa temperada de sal) contraposta ao idealismo aristotélico-tomista claramente assimilado à jesuítica e inquisitorial flor de laranjeira.

Obviamente, dir-me-ão, todo o artista é um suspeito (ainda que alguns sejam apenas suspeitos de ser artistas, e em todo a caso a isso teria que responder (valendo-me de inatacáveis autoridades) «esses excêntricos são ajustáveis». (3)

Em todo o caso, penso que todo o pensamento genial deve ser deixado escrito, para auxílio da humanidade e glória da nação a que pertence o seu autor. Não podia assim, em boa fé, eximir-me a exprimir o meu – ainda que a sua publicação surja demasiado tardia para que possa ser objecto de seminário em sede competente, integrado na DÉCIMA SÉTIMA como corolário do génio português – tanto mais que esse pensamento é fundamental à compreensão crítica da minha estética.

E tudo o mais de que os meus detractores me acusem – preocupações com o poder do Poder, a fome, a exploração, a revolta e a revolução, a guerra imperialista, a poluição, a incomunicação, a solidão do Homem (e outras baboseiras) – tudo isso é falso, produto de destemperados espíritos mesquinhos:

Toda a minha busca, gira realmente, em torno desta grande questão fundamental: «De onde caíram as bebidas?» (4)

É que não é impunemente que se nasce, nas praias de Portugal.



NOTAS –

1 citado por Boris Vian. L’ Automne à Pékin-1956.

2 sobre a riqueza da ausência de obra e suas potencialidades, veja-se, para mais detalhes, a política de subsídios em Portugal: estatal, para-estatal e outros.

3 «A Mecânica na Exposição de 1900», Paris, Dunod ed., tomo 2, p. 204.

4 James Joyce, Gente de Dublin, ed. port. Livros do Brasil, p. 163.

1982 – in catálogo exposição – ETC – Museu Municipal de Caminha

Felizmente somos gente que sim, Senhora, todos bem muito obrigado, e por lá? Directos às coisas, sempre em dia através das melhores revistas e dos mais conceituados jornais, com a claríssima visão a preto e branco – ou nas autênticas cores naturais, o que vem a dar no mesmo – em reprodução reproduzida de reprodução, segundo as mais perfeitas e modernas técnicas:


e então é ver-nos, se em quinze dias corremos dezoito cidades e duzentos museus variados, prontos a servir, dois mil cabarés e a perfeita procissão de metropolitano, de sorriso nas fuças para o passante…

mas, íamos aí, somos gente em dia: ainda a última moda, a penúltima (ou a de há cinquenta anos!) não rebentou bem, já nós, catrapuz! Aí estamos – a mudá-la, virá-la, originalizá-la, que nesta coisa de seguidismo não somos tipos para menos.

Olhamo-nos ao espelho, encontramos aquela imagem difusa que é privilégio dos nossos olhos embasbacados modificarem em nitidez e requinte – apanágio do Pensamento português desde Afonso Henriques, ou, sabe-se lá, Viriato – e aí vamos de velas soltas:

é «retro» que diz a gazeta? não ficamos por aí, sai retrosaria, «abstracto»? sai borrão em abundância e montes de esquemas, que nisto somos como os melhores de lá de fora e temos mais a tradição;

e mais todos os «istas» de agora e sempre:

surrealistas coniventes com todos os poderes, à procura de lugar na história da sua rua, impressionistas serôdios, realistas de faca e alguidar, e os outros – os das procissões de defuntos, das paisagens de bilhete postal e cachos de uva sem bicho, do desenho: de fossa séptica pintado às cores a vinte paus a hora, e floristas de água de lavar pratos, interventores de sala alcatifada, mestres de obras coloridos de rosa deslavado e verde desgraçadinho, actores de quinta, boémios de recolher obrigatório, libertinos de papel selado e revista pornográfica, libertários de farda e número nacional, senhores de gravata, burocratas da especulação, e mais todos os saudosistas, todos os oportunistas de todas as oportunidades, arrivistas, num estendal de esperteza saloia e mediocridade…:

construímos um país de estilhaços recortados de jornal na guerra dos outuros. Se é para acomodar, que maravilha, a tibieza mascarada por altos-brados, a impotência com monumentos nas praças públicas e apoio oficial, mestres de roda de café ou monte de sucata: mestres de banalidades e da falência, que, valha-nos deus, nisto é outra coisa que somos fortes.



É claro que somos acima de tudo um país de poetas – e ainda havemos de os ter formados pela universidade católica de Aljustrel, com canudo e tudo, e é muito bem feito – país de poetas aos quinze anos, como qualquer outro, assim se fica nessa poética lamechas e lambida, nem sentado (de cócoras) à espera da noticia do amanuense da critica, ou dos outros, conforme a sorte (ou o azar) nos «obriga» à «província de que nunca queremos assumir a autênti cidade criativa, ou nessa grande capital de nível europeu!, mundial!, com as suas quinhentas almas e um milhão de idiotas à espera nas bichas:

Que críticos também os há internacionalizados, pedantemente sentados num álbum de recortes, trinta e duas palavras-chave para a cabala de cada qual, mais a enciclopédia da verbo, ou, viva o luxo, as edições em fascículos do Brasil, o larousse ilustrado, mais quatro conferências nas estranja a aprender (e bem!) como se faz a coisa:

começa-se por cartões de visita – uma centena é um bom número e sai mais barato – continua-se em artiguinho de jornalzinho, acaba-se nos grandes meios, diz-se «mass media», que, também ao mais alto nível internacional, são o caixote do lixo de todo o mau cheiro e etc.. Bate-se junto com duas lojas de retalho, também em óptimas mãos e com as cabeças coroadas nos nimbos dos eleitos, trinta gajos pedinchantes e dois ou três assim que tal coisa, um toquezinho de corrupção oficial a enfeitar, e está feito:

esferográfica de carga reforçada, uma resma de papel, o chorrilho ininterrupto por entre altares de incenso rançoso e capelas escalavradas pelo mau tempo: a obra de uma vida, nas cadeias do alambazamento mútuo, enquanto não vêm as áreas de repouso com lindo arvoredo e regatos e anjos a tocar pífaro, que é onde, diz-se, acabam os pobres de espírito.



E que toquem os sinos, já é uma grande coisa. Terra de retalhos de pano de estopa, letras e trinta dias com juros por fora, relógio de contrabando no prego, não teremos o que merecemos, mas merecemos o que temos: política de fotocópia ronceira, cultura de reader’s digest, os restos da inquisição embrulhados em papel de estanho para não se lhe notar a podridão, o chato do Camões e todos os outros chatos que lhe seguiram as pegadas louvaminhas da epopeia, povo à procura por toda a parte (até que lhe caia na cabeça), menos no fundo da terra, daquilo que não é seu mas devia. –

- Para além disso, moscas, que são úteis ao equilíbrio, mas dá gozo que se farta espalmar na parede quando chateiam demais.



Resta a consolação de, no meio da rebaldaria nacional – e mais além – haver ainda espaço para algumas formas de gozo, por falta de funcionamento da organização que nos porá, carimbadinhos de números iguais, a par do mundo – (que nós, tipos de cultura superior, não queremos nada com selvagens e outros brutos.



«eu gosto muito da minha terra, a minha terra tem o sol a andar à volta. no verão há turistas e neste a guerra no Líbano, ciclistas, centrais nucleares para poupar velas. maus que põem bombas e bons que põem polícias.

E até, imagine-se, Russos e Americanos para além de pretos e brancos e mil milhões de chineses.

os índios, os lobos e as ervas, esses é que estão a acabar».

1981 – curriculum – in catálogo - «Surrealismo» - Sindicato dos Trabalhadores de Escritório e Comercio – Viana do Castelo

Introdutor do Surrealismo em Âncora e Afife, é hoje, muito justamente, incluído entre os dez milhões dos maiores artistas europeus vivos.


Estudou história de Arte em diversas adegas de Perre, filosofia nas barricadas de rua, estética na zona da Ribeira do Porto, técnicas várias com vários técnicos.

Da sua intimidade com Vermeer, a quem foi apresentado pela rendilheira apreende muitas receitas de cozinha.

Posteriormente estuda em Paris o preço dos bilhetes de comboio e metropolitano.

A sua obra literária é também muito vasta, estando em acabamento mais um volume de «Metafísica e Problemas de Deus para os Mexilhões» (Editora O, Obras Completas).

Quanto aos Drs. Em Arte, deseja muitas felicidades, nas suas carreiras docentes, e consigam os almejados novos automóveis ou desodorizantes.

DISCURSO SOBRE A ARTE

Fica-se assim, parado, embasbacado na frente da televisão a ver as coxas às tipas que anunciam outras coisas – tão lindas, não são? – para compara a prestações. E não se dá pela mosca que esvoaça senão para lhe dar um tiro tau! a bomba atómica: dos insectos, dos ventos iluminados pelo sol, da noite sem fantasmas atavicamente colados à pele.

Fica-se assim, à espera do salário no fim do mês, das massas cravadas ao amigo, à espera de um tecto de imigrado – igualzinho igualzinho ao das revistas, do vizinho, do sr. dr.

Fica-se assim, sentado no espaldar alto das ideias geniais (embrulhadas em papel de seda e tiras de renda cor de rosa) numa masturbação vagarosa do ventre a inchar, a inchar, a olhar superiormente os vãos mortais, do estrado alto e embandeirado por altifalantes sempre mudos de academia de génio bolorento e leituras respigadas nas colectâneas de obras escolhidas.


-------- TAU! espalma-se um lagarto contra o chão de cimento armado, fixam-se as olheiras da indiferença. E esperam-se sempre: a vinda da chuva, da primavera, de deus todo poderoso, do emprego, do ordenado, dum filme do lelouch, do catálogo das tintas, que passe o cancro, que nasça bem o menino, não haja guerra nesta terra, morram os inimigos. O autocarro, a bica, não chova na cama. Que.


E morre-se. A toda a velocidade. Na competente velocidade dos computadores, da informática, da super industria da fome, do saber complacente (absoluto) entre paninhos de crochet, meias ponteadas, rimmel para as pestanas, jogos de futebol e notícias de inundação na china.


Fica-se, no super projecto da proveta, limpo, asséptico, anodizado, polvilhado de talco perfumado, asseado, lavado em sabonete de óleos sintecticos, purificado – só, entre as benesses do estado, as sacanices do estado, as reformas do estado, os poderes do estado, os donos do estado: triturado, pindérico, anilhado, numerado, registado, apertado, enlatado, medido, conferido, espancado, controlado, comandado, amestrado, embrulhado em papel de jornal, e fio de nylon.


Fica-se: sobretudo nunca perante si próprio e a neblina sobre um prado verde de rebentos novos.


E não me venham com o vosso herói positivo a mudar a cada estação da táctica, a cada sínodo episcopal, a cada subtom da tinta.

o herói positivo é o quotidiano do futuro sem horas, a liberdade nascida das cinzas de nós próprios e de tudo.

DE TUDO!

O herói positivo será o quotidiano que vem dentro de um ano, um século, dez mil anos.

Mas vem – e vindo não precisa de herói positivo para nada. Ou então não vem e também não são precisos heróis nenhuns nas cinzas calcinadas desta: diz-se civilização.

Depois o importante são aquelas meias a secar que ninguém viu, as pedras de cor gamadas pelos putos de corrida, o azul das asas de libéula – coisas que os críticos, se encontram por acaso como pedras no sapato, empalham nas enciclopédias, carregadas de signos cabalísticos que nunca tiveram (felizmente).

Depois o importante é não haver fome nos vizinhos ali ao lado, formigas mecânicas a sair dos laboratórios do pronto a usar, o direito de estar sem fazer nada: de estar-se nas tintas!

Quero lá saber que uses meias amarelas ou um braço pendurado no nariz. A única unidade é a diversidade global absoluta – desfardada. E o contrato social: impinjam-nos aos lobos.

Viva a alcateia.

Ah! Diz-se que a diferença entre Arte (ah! Ah! Ah!) gratuita e não gratuita, é ambas serem gratuitas.

Ainda bem.

E obrigado pelas vossas palmas e assobios: se esperáveis definições ou profecias (ou.) fico à espera que as encontreis e pregueis na praça pública: eu não estarei lá.

1980- 14 a 29 Junho, Salão Nobre da Câmara Municipal – Vila Nova de Cerveira

Algumas exposições Colectivas e individuais

Algumas exposições Colectivas:


• “Inagural Exhibition of the Japan International Artists Society”. Art Museum of Chiba – Tokyo 1981.

• Yamakataya Department Stores – Okinawa 1981.

• Perfect Museum – Nara 1981.

• Fukuoka Perfectural Culture Hall – Fukuoka 1982.

• “XVème et VIIème Grand Prix International d’Art Contemporain” – Monte Carlo.

• “Biennale International Quebec-France” – Galería Anima G – Quebec.

• “Ibizagrafic 74” – Museo de Arte Contemporâneo – Ibiza.

• “Arteder 82” – Feira Internacional de Muestras – Bilbao.

• “Colectivo Androx” – Galería Arlazón – Burgos.

• “Colectivo Androx” – Galería Millares – Madrid.

• “9ème Hall aux Toiles” – Mairie Annex du 4ème arrondissement – Paris.

• “Exposition International de Paris E’ 87”. – Galerie de Nesle – Paris.

• “9ème Salon International Artistique Haute-Loire” – Puy-en-Velay.

• “VIIème Salon National Artistique du Haute-Allier” – Langeac.

• “Exposition International de Paris” – Mairie du 6ème arrondissement – Paris.

• “Lumiére sur l’Art” – Centre Pierre Cardinal – Puy-en-Velay.

• “Visions d’ailleurs” – Brioude.

• “Victor Silva Barros/ Alvarez Domínguez/ Cristian Léo” – Galerie du Licorne Hotel – Puy-en-Velay.

• I e II Exposições Colectivas da Cooperativa Árvore – Porto.

• “Arte ao Ar Livre” – Aveiro.

• “Vème Salon National Art et Créations” – Billon.

• “Biennale Internationale D’Auvergne” – Chatel-Guyon.

• “Arte Nuevo – Anos 90” – Centro Cultural Galileo – Madrid.

Etc….



Exposições Individuais:

• Em Viana do Castelo, Porto, Aveiro, Coimbra, Guimarães, Braga, Ovar, Amarante, Póvoa de Varzim, Arcos de Valdevez, Vigo, Lugo, Orense, ect.

• Em 1991, o Museu dos Biscaínhos, de Braga, organiza uma retrospectiva da sua obra na década de 80, apoiada em colecções particulares, intitulada “Como um Espelho…”

Vinte e cinco anos de exposições

Vinte e cinco anos de exposições


“ESTRADA FORA”



Comemoram-se normalmente estas coisas com balanços e retrospectivas, cheirando a “morto-vivo” ou a “esclerose”, como se tudo estivesse feito e definidos os caminhos dum percurso desenhado em estrada de defunto e jantares de amigos e champanhe.

Por mim aproveito para cervejas sem gravata, e recomeços, outras dúvidas e carreiros pelo meio dos montes ou passeios de inverno na praia.

E aqui deixo coisas que faço pela primeira vez: uma exposição só de desenhos, uma exposição temática, histórias de melancolia e solidões de raparigas.

Em música, chamariam a isto, se calhar, sonatas e divertimentos.

Eu também.

Victor Silva Barros

1976 – in catálogo – salão da Cultura (antigos paços do concelho) Viana do Castelo

Nasci em 1950, por acaso


não sou dr., nem condecorado, nem rotulado

nem nada

Quando era pequeno, matei uma borboleta que enterrei no quintal; essa borboleta era um avião inimigo e tinha nas asas uma cruz gamada, e um cifrão.

Cresci até um metro e 72, e depois parei.

«Um dia de manhã acordei e disse: sou pintor –

Não sou (pinto) mas nessa altura estava convencido disso».

Hoje estou convencido de outras coisas.



Faço bonecos, cuspo, lavo a cara de vez em quando

e não procura nada:

encontro.



Quando morrer, ainda vai haver muros a dividir as terras (que eu sei disso), tipos de pata em cima de gente que não sorri:

mas um dia acabará, tenho a certeza.

Por isso quando morrer, descanso, - digo: paz.

E como, «graças a deus sou ateu», entro tranquilamente no ciclo natural, sem receio, sem medo, sem terror.

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Comprem, meus senhores, comprem!

E quem não comprar ao menos pode ver:

tenho aqui, os monstros – mais que as

mulheres barbadas ou serpentes

aqui estão os malabaristas e os palhaços

os ladrões e os vadios os trabalhadores

E os actores

Também tenho retratos autografados de senhores

engravatados, cartazes de cidades e outras maravilhas

Aqui não se engana ninguém – toda a gente sabe

à entrada que é mentira.



1- Venho contar histórias, das terras por onde não andei

das coisas que vi e que não vi, no meio destas cobras

que sobem desde um cesto (e sem ninguém tocar flauta)



2- falo, digo eu, das crianças tristes de um bairro qualquer

que não são meninos, das mãos com calos das pernas com varizes

de pessoas que até passam por nós na rua.

falo, digo eu, de coisas que vocês conhecem (e eu não, que só as vi passar) de cidades poluídas e dos campos das montanhas

como de coisas que vêm nos jornais.



3- E aproveito de passagem para apontar com um dedo



4- a ordem e o progresso, os deuses e os escravos

o dinheiro os chefes as nações – vivam os policias que disparam as armas para manter o ópio

vivam os Senhores e essa burguesia de discreto

encanto liberal

a continuidade



5- É mentira, meus senhores

mas se ninguém acusa ninguém, que deus nos livre,

ao menos temos a feira deste tempo que se fosse de revolução era de festa

mas não é



6- Vendo, retratos de meninos tirados para o padrinho dr.

paisagens de terras onde sou estrangeiro

- que o meu país ainda é longe e não o lembro

mas também forças de escravos que se libertam



7- Pinturas, que pinturas tenho para vos enganar os olhos,

momentos instantes passageiros sem mais história que uma reacção química, não é.

arte não vendo, que arte é cavar a terra, levantar casas,

fazer o pão e o telhado ao som dum canto

Arte é cada naco desgarrado do pensamento de cada um de vós

- e não o vendeis,

porque nem se pode.

1976 - GALERIA "O PRIMEIRO DE JANEIRO"

OLHA!:


Quem te disse, amigo, que «arte» era coisa lá de cima?

Que quadros e outras coisas eram apolíticos?

Que a nossa obrigação era jogar com uns quantos o jogo da masturbação intelectual, para gozo zoológico em galerias e outros recantos inacessíveis e silenciosos?

Quem te disse que o nosso dever era manter-vos afastados – ou fazer-vos afastar – do quotidiano, em vez de irmos convosco mergulhar nas raízes da terra, sujar as mãos nas vísceras-intestinais que somos: homens comendo-nos?

Não amigo!

A História é a história da luta de classes – queiras ou não – as torres de marfim apodreceram ou estão rachadas, intervir é estar vivo, fazer a «coisa artística» é tomar partido de um dos lados – e se o povo se bate lá fora em cada posto, em cada rua, como podemos nós, senão vigarizando (mentindo) dizer que não sabemos!?

Enfim, as pessoas a quem queria dizer coisas, não vão vir cá – mas é preciso bater-se em todos os terrenos.

E a ti – se vinhas ouvir o cantar das ninfas, a poética do estar de costas, esperavas o «deleite» do mel e das fragrâncias florais, então, meu caro, não tenho nada para ti, homem ingénuo, homem ridículo. Absolutamente nada!

E a ti – que esperavas a subserviência aos teus esquemas e valores, a que estás habituado nos lambe-botas e oportunistas que fazem o teu jogo burguês, directa ou encapotadamente, tenho o meu gesto militante, o meu grito – este soco que tens de sentir no fundo, impotente para dizer não!

Mas a ti – que sentes o pulsar do dia e do espaço (e talvez tenhas entrado por acaso) – a ti amigo, estendo francamente a minha mão de camarada.


Porto – Maio – 1976


(Texto do cartaz/nota exposto na galeria do Primeiro de Janeiro e que serviu de pretexto para o fecho da expo – pela direcção – vinte e quatro horas após a abertura)

1975 – in catálogo – Galeria Capitel – Leiria

Digo:

desta gente deste sangue deste corpo

(como seiva e como fruto)



Em nome deles – em nosso nome:



 para que punho seja arma

 para que corpo seja elo de corrente

 para que cultura seja fogo

 para que revolta seja revolução

 para que cantar seja amar com amor

 para que amor seja luta

 para que luta seja vitória



e nasça a alma (viva) vermelha do corpo (re)construído

deste povo

deste país

deste mundo

1974 – in catálogo – Galeria Picasso – Viana do Castelo

neste abrigo


- nesta fuga? –

a palavra: muro gume faca fogo amor sensual sexo revolta

solidão amargura resto fixo silêncio

neste abrigo

imagino por vezes me encontro

e no tempo impuro do meu gesto de procura

fica neste momento – (agora) – verdade que vos digo

aos gritos

ou no eco vago e frio de uma ausência

1974 – in catálogo – Cooperativa Árvore – Porto

de repente, digo-te:


como se para mim fosse apenas ter-te (ainda que apenas aqui) e este reflexo fosse o meu-teu acto reflexivo – ou instintivo estarmos sós.

esta pintura – é o estado entre a busca de ti em mim mesmo e este querer chegar ao fundo de mim para encontrar o comum entre toda a gente: para ser sociável.

amo, penso, quero, desejo gosto de.

Sonho: fujo deste mito que sem querer te fantasiava como um dia.

e este entre perseguição (coerciva de ti) entre pasmo espectante e cobarde (coercivo de mim) é o que entretanto nos une e nos separa – nos liga por procura necessária, urgente, nos separa por estiolante compromisso destruidor de cada um.

da necessidade de ter de ser assim

à inutilidade de ser assim

resta o substrato sociável imperfeito que ainda somos – ou a frustração incompleta que nem sempre poderemos sublimar só em tempo junto.



à irene



«e a pintura, esta pintura, como procura do estado latente de verdade instintiva, comum.

os espaços os silêncios a essência enfim entre um gestualismo criador inconscientemente ainda burguês no acto de expor e a destruição em hipóteses implicitamente proposta para uma anticultura (a inalienada arte futura de que talvez nem possamos ser primitivos – apenas videntes).

Ou ainda os gritos, os ecos de gritos, o dizer às pessoas da necessidade de ser preciso precisar-se (se precisam) as outras pessoas: e que isso desfará necessariamente uma estrutura total e recriará um novo campo diverso de valores, de consciência, de ética, de filosofia; de estética – de sociedade.

Sentir-se essa necessidade (saber-se a própria limitação) e projectar-se em futuro numa esperança materializável de amanhã.

Sobretudo saber-se energético (dialogante) futurizável.

acreditar-se no futuro e sobretudo que cada passo é válido em si por equivalência de toda a experimentalidade (e por dialéctica em progresso – ou a sua hipótese de transformação em progresso): até quando se possa ser tomado à priori como caminho estéril ou lateralizado do socialismo futuro que temos de construir.

1974 – in catálogo – Galeria Convés – Aveiro

Ontem:


«aparecia de repente, como uma chicotada no ar frio,

sorria como se me visse pela primeira vez (ou pela última)

- como quem ainda (já) não acredita – E dizia-me «olá» como se estivesse ao telefone»

resta: no eco deste vento, desta chuva, desta náusea calma, esta carícia cor – esta luz ausência.



depois (hoje) – cada quatro – cada pintura – é um desfloramento doloroso e sensual: mais que uma existência, um acto de ser:

também apenas umas aparência – (talvez só uma aparência).



mas enquanto gestual, o acto cénico existe por si e imagina-se não comprometido – como se alcançasse enfim a liberdade e a pureza absolutas (uma certa forma de plenitude) no fantástico.

1973 – in catálogo da exposição – Cinema Palácio – Viana do Castelo.

1- O encontro com os objectos (a (re)invenção das formas)


e esta vontade de mudar: e este ir afinal continuando a ficar, por comodismo (ou por cobardia) – talvez já por cansaço.



2- Mas também este olhar, atento e consciente, à volta, o incómodo que é preciso fazer sentir-se para fazer pensar (o desafio?)



3- A ternura – o amor - o fumo que resta numa mão fechada



E então a pintura é um falar sozinho, mas à espera que as pessoas ouçam e nos entendem – nos falem



4- Ser – continuar – um contador de histórias: simples ou nem tanto, da realidade que nos cerca (em que estamos) e de que por hábito ou frieza ou comodismo ou estupidez as pessoas se alheiam.



5- Ou apenas a fantasia – a exteriorização da «louca da casa».



6- A cristalização dos momentos (a cristalização não a desumanização) normais, simples, quotidianos sem importância.



a incomunicação, a solidão, a morte, a náusea, a vida, a importância de ter apesar de tudo a liberdade de escolher e de construir no espaço e no tempo. É estes homens que admiro por existerem. E estas mulheres que amo por existirem.



7- (Sísifo continua a subir a montanha com a sai rocha, a deixá-la cair e a voltar a subi-la. Mas cada grão de poeira é um mundo).



De qualquer maneira é urgente pensar-se sísifo feliz e interveniente.

1973 – in catálogo da exposição – Galeria de «O Primeiro de Janeiro» - Porto.

Nem correntes. Nem escolas. Nem situações de comprometimento limitativo. A liberdade de ser eu desde o primeiro passo deste caminhar sozinho por entre a minha solidão e a solidão dos outros, da sociedade de pontes quebradas na angústia de não saberem nem poderem falar com os outros. O reflexo, apenas o reflexo, dessa gente que eu vejo a cair à minha volta lentamente sem uma mão que se lhe estenda. O ruir das coisas ou as coisas que se estabilizam como fantasmas. O meu mundo e o mundo dos outros, as paredes de um frio em que se esbarra. A liberdade que não é, e também a mulher: a mulher símbolo, a mulher amor, a mulher dos barcos perdidos ou da cama alugada, das poesias com quinze anos ou a que passou em qualquer parte. De qualquer modo, a procura de ser eu, de dizer eu – e vós lá – mesmo através da hora líquida das cidades ou dos cemitérios onde até há flores de plástico.

1972 – in «Da Pintura» - República, citado in catálogo da exposição – Biblioteca – Museu de Albano Sardoeira – Amarante.

«… Antes de mais, a Arte deve ser a reacção de um indivíduo ao meio social, exteriorizada numa linguagem estética tendente ao Belo absoluto; a reacção de um indivíduo – o artista – situado no seu tempo, no seu espaço, em si próprio: a sublimação ansiosa de perfeição do seu «ser» e «estar». Daí a necessidade da liberdade alheia a qualquer forma de sujeição: social, política ou especulação artística pura. Daí a necessidade de uma análise onde o social estará – porque «existe» - o artista reconstruirá – porque «é» - dentro de um mundo plástico reinventado – porque a sublimação tendente ao Belo absoluto é uma das determinantes e essenciais da Arte.»


«… Essa imagem figurativa (simbólica ou não) mais ou menos elaborada conforme os casos, será por assim dizer uma ponte de sugestão e guia, entre o mundo real-aparente do espectador e o mundo auto-verdade do artista. Será a porta de comunicação-esteriorização, entre o presente-eterno do autor na hora da criação e das diversas leituras dos diversos espectadores no momento da observação.»

«… A linguagem que então resultará (da contemplação da Realidade e do Sonho) sublimada e exteriorizada em materialização obra-de-arte, poderemos chamar fantasia. Fantasia essa que poderá ser levada ao ponto extremo quase no limiar do absoluto – o absurdo – aparente (extremo esse explorado de certo modo por alguns surrealistas figurativos e abstractos até ou se poderá quedar numa fantasia levemente marcada – como por exemplo a utilizada no processo de iluminação de La Tour ou no desenho de Jean Fouquet.»

1971 – in catálogo da exposição – Biblioteca Municipal de Viana do Castelo

A solidão de cada homem. A minha própria solidão. O vazio das situações hipotéticas e subjectivas, meio caminho entre a realidade e a fantasia. O mundo da maioria em comunicação com o meu mundo, através da ponte figurativismo que transforma a minha linguagem em língua inteligível (embora estrangeira para a maioria dos leitores) susceptível de ser veículo de comunicação entre eu-que-faço e quem-vê. Tudo servido por esquemas renascentistas pessoalizados (e personalizados), semi-rígidos. Tudo servido pela «minha» cor. A minha paleta: primeira realidade absoluta.


Para além disso, a pesquisa de ritmos plásticos (e não) a busca de novas soluções estéticas, não marginais nem preponderantes, mas apenas complementares. A pesquisa da matéria pela matéria em combinação-criação. O infinitamente pequeno pela lupa subjectiva, reconstruindo e reconstruindo-se ao relacionarem-se com cada meio-ambiente.

Esta a minha arte actual. Discutível (como tudo) mas minha.

1969 – in catálogo da exposição – Biblioteca Municipal de Viana do Castelo

«… não pretendo contudo, mergulhar no abstracto, mas apenas sintetizar a percepção, atingir partindo do simplesmente figurativo, a essência das coisas e das situações.


Apreendidas e digeridas, sintetizadas e decompostas, novamente aglomeradas, ao serem recriadas, tento que levem em si, como novo elemento fazendo parte inseparável do todo, o meu «eu» criador, o meu mundo pessoal, sendo assim, ao mesmo tempo, nova realidade, opinião e reflexo psíquico.

Na minha pintura há ainda a castidade da procura, a imaturidade dos primeiros passos, mas também a honestidade de quem faz o que quer, porque quer, consciente e livremente.»

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

1.O NARCISISMO


80x100cm
3.000

2.O QUE RESTA QUANDO AS VOZES INCÓMODAS SE EXTINGUEM


90x60cm
3.000

3.AS GUARDIÃS DO SILÊNCIO


90x54cm
3.250

4.GAZA


54x65cm
2.750

5.MELANCOLIA


70x30cm
1.500

6.O ATELIER ABANDONADO OU O DESEJO DO EFEITO BORBOLETA


74x97cm
4.500

7-AS CAIXAS CHINESAS


50x60cm
2.000

8.A ESPERA


56,5x57cm
2.000

9.A UNIFICAÇÃO DA POESIA E DA RAZÃO



49x92cm
2.500

10.O JARDIM DAS DELÍCIAS


100x60cm
4.500

11.O INSTANTE ABSOLUTO


100x60cm
4.000

12.O INTRUSO OU O PADRE ETERNO VIGIANDO O HARÉM


100x60cm
4.000

13.O ENIGMA DA ESFINGE


50x60cm
2.500

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